E foi assim que começou
Uma nata de nuvens
O céu ambíguo em dois azuis
Foi a maior tempestade que já vi
Daquelas de inundar a casa
E transbordar a alma
Mas só no retrovisor
Havia sol adiante
E o azul era claro e puro
Salvo e seco
São e salvo
E foi assim que começou
Uma nata de nuvens
O céu ambíguo em dois azuis
Foi a maior tempestade que já vi
Daquelas de inundar a casa
E transbordar a alma
Mas só no retrovisor
Havia sol adiante
E o azul era claro e puro
Salvo e seco
São e salvo
Tanto tempo atrás
Palavras em papéis coloridos
Dizem para mim
Mas falam de ti
Parece outra vida
Antes dos meteoros e dinossauros
Zero crateras
Meu coração era uma superfície lisa
Plana e árida
Casa sem cobertura
A chuva escorria
Perdia tudo sem ter nada
Eu era um terreno baldio.
Ladeado das gramas mais verdes
Por contraste ou desconhecimento
Até a semente dos papéis coloridos germinar
Transformar em floresta
Jardim secreto
Plantação selvagem
Florescer
Aconteceu novamente.
As páginas do livro se conectaram com a realidade, através da manifestação de um novo NPC.
Ela disse para mim que eu me preocupo demais. Que eu estava cantando com medo de não gostarem. Que eu estava escrevendo com medo de acharem ruim. Que eu deveria me libertar dessas preocupações e só fazer.
Parece simples, mas ao mesmo tempo fazer com o medo que sinto já é um esforço tão grande! Continuo fazendo porque gosto, pagando o preço necessário.
Eu sei que algumas pessoas não têm esse custo e eu as admiro.
Mas é nesse momento que eu entro nas páginas de hoje. A necessidade incontrolável de fazer as pessoas gostarem de mim. Muitos diriam que eu não tenho isso, porque aprendi a demonstrar muito bem meus gostos e desgostos e a estabelecer limiter. Porém, é mais profundo que isso e as partes mais vulneráveis de mim ainda são vampiras e se queimam com a exposição ao sol.
"You're such a strange girl
I think you come from another world
You're such a strange girl
I really don't understand a word"
É como me sinto sempre que eu penso sobre os que os outros devem pensar de mim. E a realidade é que nem devem pensar e eu deveria sim me preocupar menos.
Por que eu sinto isso?
Como se eu estivesse boiando abaixo da superfície.
A água faz uma pequena película de distorção, como um filtro de cor, e tudo fica desconexo e confuso.
Uma outra realidade, escondida atrás das sombras mas sempre à espreita.
O tempo todo à uma curta distância, ao alcance dos dedos, mas presa na distância do horizonte.
É como o acordar. Por poucos segundos:
Você sabe
Você lembra
Você não entende
Você não tem mais.
Para onde foi e o que era?
Eu me sinto naturalmente entorpecida.
Passo por uma núvem espessa na janela de um prédio alto na serra, e é só água e frio.
Para onde foi a estrutura dela e os sonhos de algodão doce?
A materialidade inventada pela mente - ela mente e não se comprova.
Por que eu sinto que tem algo mais que eu não estou vendo?
Por trás desse espelho, que talvez não seja espelho, seja Alice.
Pelo inverso dessa melodia, que talvez um código secreto de Mozart para acessar o mundo ao contrário.
A conspiração respira no meu cangote e ri da minha cara, pois não adianta procurar por um sentido, pois não há.
Então porque eu ainda me sento sempre na beira.
Porque eu me sinto sempre beirando a loucura quando eu tento atravessar essa camada fina de proteção?
Não há como boiar abaixo da superfície. Mas eu não estou me afogando. Então estou presa? Mas me sinto tão leve. Talvez eu esteja mergulhando.
Por que quero? Ou por puro condicionamento?
Eu sei que tem algo errado.
Às vezes, eu acordo e tem algo deslocado. O mundo deslizou 5cm para a esquerda.
Mas talvez seja só o meu óculos torto.
- Você já se perguntou por que isso continua acontecendo?
- O quê?
- Pessoas se encontrando e se perdendo ao longo do tempo.
A memória falhava. Em frações do tempo ela lembrava de pessoas que já havia conhecido. Pessoas que ela tinha sido. Mas é como um sonho. Quanto mais você se esforça, mais ele escorre para longe.
É inalcançável. Tentar medir o tempo que já passou. Coexistem memórias tão vívidas que parecem que foram de ontem e memórias completamente adormecidas tão distantes que parecem de outras vidas. E nem estamos falando de reencarnação.
Ela olhava para a página em branco e pensava em quantas músicas foram trilhas sonoras e se ouvisse hoje seriam escutadas pela primeira vez, com uma leve sensação de déjà vu.
As piadas internas. As pessoas com quem as piadas eram feitas. Simplesmente apagadas. Pensar sobre isso a fez perceber o quanto de si também foi apagado.
- As memórias nos fazem ser quem somos. Você não acha?
Talvez aquilo que nos tornamos é a consequência de todos os acontecimentos que vivemos. Deve ter algo de alma para iniciar a história e dar uma predisposição a como reagimos, claro. Mas de resto é tudo passado.
Nesse momento, ela parece cansada de tudo que já perdeu de si ao longo do caminho. E o desgaste além de nos diminuir, também dessensibiliza.
É assim que começa.
As formas mudam. O design de impacto.
Carros parecem máquinas
Como se já não fossem
Mas é diferente.
É futurista
É o princípio do caos
Realidade virtual
Controle de massa
A rede social não é mais social
É um labirinto
É um abismo de inanição
É assim que acaba.
Borboleta pousada
Parede do elevador
Fixei o olhar e ela voou
Apertei o botão
Voltei para procurá-la
Seguindo os eixos da projeção esperada
Não encontrei
Achei que tinha sumido
Que era uma imaginação bem densa
Mas ela só estava em outro lugar
Longe da linha imaginária
Longe do calculado
Voando para cima
Chego na beira
De tempos em tempos
Quando falta oxigênio
E a gravidade parece mais pesada
A maçã de Newton se tornando uma arma
Com o tempo construí armadilhas do bem
Amarrei cordas
Construí redes de proteção
Algumas coisas para aparar a queda
Assim, cair deixou de ser letal
(No momento)
Mas imagino que os trapezistas que eu admirava
Também ficam roxos e doloridos
Hoje eu olho para a folha trançada de coqueiro e me lembro de você
Como as pedras empilhadas, a sensação é de que alguém esteve aqui antes
Alguém olhou para o que eu não vi
Eu não sabia que a força do vento que me guia
Também tem tempo para pregar peças
Natureza estranha
As coisas mais fortes do universo também podem ser delicadas
Também podem ser frágeis ou vulneráveis
E ainda assim fortes
Um novo ponto de vista
Uma percepção de outro ângulo
O mundo inteiro em caos
E você vê a folha e sorri