terça-feira, 5 de agosto de 2025

Terceira pessoa óbvia

 - Você já se perguntou por que isso continua acontecendo?

- O quê?

- Pessoas se encontrando e se perdendo ao longo do tempo.

        A memória falhava. Em frações do tempo ela lembrava de pessoas que já havia conhecido. Pessoas que ela tinha sido. Mas é como um sonho. Quanto mais você se esforça, mais ele escorre para longe.

        É inalcançável. Tentar medir o tempo que já passou. Coexistem memórias tão vívidas que parecem que foram de ontem e memórias completamente adormecidas tão distantes que parecem de outras vidas. E nem estamos falando de reencarnação.

        Ela olhava para a página em branco e pensava em quantas músicas foram trilhas sonoras e se ouvisse hoje seriam escutadas pela primeira vez, com uma leve sensação de déjà vu.

        As piadas internas. As pessoas com quem as piadas eram feitas. Simplesmente apagadas. Pensar sobre isso a fez perceber o quanto de si também foi apagado.

- As memórias nos fazem ser quem somos. Você não acha?

        Talvez aquilo que nos tornamos é a consequência de todos os acontecimentos que vivemos. Deve ter algo de alma para iniciar a história e dar uma predisposição a como reagimos, claro. Mas de resto é tudo passado.

        Nesse momento, ela parece cansada de tudo que já perdeu de si ao longo do caminho. E o desgaste além de nos diminuir, também dessensibiliza.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Mais desabafos

Eu acho que as pessoas confundem minha sensibilidade com fragilidade. Sim, eu sou muito sensível. Meu eu melancólico sofre e se matiriza por cada detalhe real ou hipotético. Mas eu continuo inteira. Às vezes parece que eu sou só ouvidos ou talvez jarro em que as pessoas despejam tudo que querem se livrar. E eu fico lá, receptiva. E ainda assim não me quebro. Pelo menos na maior parte do tempo.

Mas isso também não é a questão do momento. A questão é que talvez essa visão frágil que tenham de mim, faz com que as pessoas não me digam a verdade com medo de me ferir. Parece tudo uma grande ilusão e eu fico sem saber o que é real e o que é disfaçado para não machucar a delicada Roberta.

E aí eu não consigo acreditar. Até no que talvez seja real. A gente junta isso com meu incrível complexo de inferioridade e eu fico sem saída, a não ser me colocar sempre pra baixo.